“Colhendo frutos de tudo que plantei”: o legado dos 5 anos de GFG

Aniversário do Coletivo Gente Formando Gente no CCCP é marcado por presenças ilustres da cidade e repleto de homenagens aos colaboradores

POR: JOÃO PEDRO DE OLIVEIRA (UFF)

Foi em 2021 que o Coletivo Gente Formando Gente (GFG) nasceu. Com ele, diversos sonhos que antes eram impossíveis começaram a ganhar contornos de realidade, a partir da iniciativa de organizar um pré-vestibular gratuito para jovens periféricos do bairro Caramujo e regiões vizinhas da Zona Norte de Niterói. No último sábado (23), esse projeto que semeia esperança completou cinco anos, com uma comemoração localizada no Centro Cultural Cauby Peixoto (CCCP), primeiro centro cultural da Zona Norte de Niterói. Diferente do CCCP, empreendimento municipal, a iniciativa educacional parte da própria coletividade do Caramujo para mudar a realidade que os rodeava.

Equipe comemora na hora do parabéns. Imagem: Lara Sena.

A cerimônia de celebração contou com moções de aplauso oferecidas pela Câmara Municipal para diversos membros e colaboradores importantes para o projeto, entregues por Fernanda Sixel Neves, Primeira-dama de Niterói e pré-candidata a deputada estadual, Júlia Pacheco, Secretária de Culturas, e Leonardo Giordano, vereador e ex-Secretário de Culturas da cidade.

Amanda Almeida lê discurso no palco. Imagem: Lara Sena.

Amanda Almeida, fundadora do Gente Formando Gente, relata como o projeto surgiu durante a pandemia, em um momento em que ela buscava realizar todos os seus sonhos. Porém, após ter sua carreira e vida financeira desenvolvidas, percebeu que sua comunidade não a acompanhava. O que era sobre realizar os próprios sonhos, tornou-se em algo para ajudar os conterrâneos a realizarem seus desejos de vida. Devido a isso, no centro de tudo, encontram-se as pessoas que alimentam o projeto: os professores e os alunos. Para Amanda, esse fator humano é que tornou o GFG maior que ela, se sustentando a partir de um esforço e vontade comum a todos que participam dele.

Os resultados desse trabalho, que só se multiplicam com o passar do tempo, são visíveis. O impacto dele se alastra e, em julho, vai ocupar um espaço na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), maior evento científico da América Latina, que ocorrerá na Universidade Federal Fluminense (UFF). Com planos de produzirem rodas de conversas e lançarem um livro que retrata a visão dos alunos sobre o futuro da cidade, o Gente Formando Gente faz a pauta da educação de jovens periféricos e, os próprios adolescentes, participarem de um evento de acesso universal ao conhecimento acadêmico, que é um marco para a história da cidade de Niterói. 

Alcançando seu principal objetivo, no ano de 2025, o projeto conquistou nove aprovações em universidades, dentro de cursos como Engenharia de Telecomunicações, História e Ciência da Computação, em instituições como a UERJ, UFF e Universo. A comemoração do aniversário no Cauby Peixoto esteve relacionada com a recente notícia de que ele se tornaria o segundo polo de ensino do grupo, ao abrigar uma turma inédita, iniciada no dia 16 de maio. Esses números de aprovações vêm atrelados ao aumento de polos e turmas, além  do recorde de mais de 200 inscrições para o ciclo de 2026. Atualmente, o GFG conta com dois polos, um no Instituto Jelson da Costa Antunes (IJCA) e outro no CCCP, de ensino e 4 turmas. 

Como centro cultural nascido a partir de investimentos públicos, a parceria entre uma iniciativa da sociedade civil e o governo municipal se tornou um novo pilar para o Gente Formando Gente. Leonardo Giordano, vereador de Niterói, enxerga a construção da luta da juventude brasileira pelo acesso à universidade como uma das lutas mais importantes para o futuro do país. Para Giordano, essa relação do projeto com o Cauby Peixoto mostra que o centro cultural está sintonizado com organizações populares e necessidades que podem ser integradas com o espaço de governo.” 

Vereador Leonardo Giordano e Secretária de Culturas Júlia Pacheco. Imagem: Lara Sena.

Fernanda Sixel Neves, Primeira-dama de Niterói e pré-candidata a deputada estadual, destaca como o Estado ainda não consegue garantir todo o acesso à educação, o que leva a sociedade civil a estar adjunto a ele na busca pela educação mais universal e de qualidade. Por isso, Fernanda falou a respeito do próprio governo entender o que a população realmente precisa, flexibilizando o uso de espaços públicos, assim como foi feito com o CCCP: 

“Aqui é um centro cultural, então não necessariamente ele abriria portas para um projeto social, mas a gente fez uma conversa, entendeu a importância desse espaço e um centro cultural da cidade precisa dialogar com o que ocorre no seu entorno, precisa dialogar com os movimentos sociais da cidade, com quem constrói a cidade”. – Fernanda Sixel Neves.

Primeira-Dama de Niterói Fernanda Sixel Neves. Imagem: Lara Sena.

Fernanda, inclusive, também ressaltou como o que mais lhe chamou a atenção no GFG foi o esforço dos jovens alunos que buscam pelos seus sonhos e os professores que os guiam nessa trajetória do vestibular: 

“Eu acho que [a característica que se destaca] primeiro é como o projeto se organiza. Como a partir da orientação dos professores, jovens que vivenciaram a dificuldade de correr atrás dos seus sonhos devido às suas histórias pessoais ou suas origens periféricas, começam a retribuir e se reorganizar, para se devolverem também e possibilitar que outros jovens alcancem a universidade.” – Fernanda Sixel Neves

Entre esses jovens, Sara Souza, que até chorou quando recebeu a notícia sobre seu ingresso como aluna do projeto, reflete como decidiu começar esse estudo já no 2° ano do Ensino Médio para conseguir um direcionamento que ela não conseguia em casa. Meus pais não têm o segundo grau completo, então eu nunca tive um direcionamento para como estudar, que faculdade fazer.Se tudo der certo, eu faço [Enem] esse ano e faço o ano que vem para tentar entrar na faculdade”

Ao conseguir essa instrução nos estudos com o Gente Formando Gente, Sara tem esperança de conquistar sua independência e dar a orientação que não teve para seus filhos. Porém, também olhando para quem veio atrás dela, a menina possui muita vontade de “conseguir concluir a faculdade para poder dar orgulho para os meus pais que não tiveram essa oportunidade de concluir”.

Responsáveis de alunos, como Cíntia, apenas torcem para que seus filhos, ao conseguirem acesso ao estudo do pré-vestibular, possam alcançar o espaço da universidade. Ela aponta como essas oportunidades desenvolvem o jovem em amplos aspectos: “O caminho da educação é o que vai fazer realmente a diferença na vida de todos. Não só transforma a vida da pessoa que está estudando, mas de uma família inteira. A gente também consegue subir o nível não só de algo material, mas de consciência, de estudo cultural”. 

Auditório do Centro Cultural Cauby Peixoto. Imagem: Lara Sena.

Entre as pessoas que decidiram ajudar, Caroline Mattos ensina química para os jovens, mas agora está finalizando sua história com o projeto. Porém, como uma educadora que está desde o início do Gente Formando Gente, ela se emociona até hoje, observando seus alunos: “Ver a trajetória deles até alcançarem a universidade é muito gratificante. Ver a Ana que hoje em que hoje é nossa amiga, nossa parceira, colega de trabalho, mas antes de ser nossa parceira, ela foi nossa aluna. Então, ver essa Ana que não tinha coragem nela mesma […] se inscreveu no Enem e hoje ela está acessando as universidades, ela vê o quanto é importante pessoas periféricas acessarem as universidades, ocupando esses espaços, sabe?”

Ana Cristina Fagundes, ex-aluna e agora coordenadora, estava há mais de 20 anos sem estudar, pois precisou parar a graduação após ter ingressado direto após o ensino médio. Ela recebeu o convite de participar do pré-vestibular como aluna e isso a fez alcançar seu curso dos sonhos e, depois, iniciar a atuação como coordenadora. Ana Cristina lembra com carinho do momento mais marcante da sua história no projeto: a sua aprovação. “Eu recebi a notícia que tava 200 mensagens no meu celular para ver o grupo, que eu tinha sido aprovada e eu mesmo não estava acreditando.” 

Moção de Aplausos da colaboradora Ana Cristina. Imagem: Lara Sena.

Observando os novos rostos que agora correm atrás dos seus sonhos, ela tem apenas uma mensagem para eles: “Para eles não desistirem, porque eu tenho 44 anos e nunca desisti do meu sonho, que ficou adormecido e agora tá florescendo. Eu estou colhendo frutos de tudo que eu plantei.”

Alunos e professores celebram mais um ano de GFG. Imagem: Lara Sena.

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